
Inauguração: 11 de abril a 13 de junho de 2026.
Segunda a Sexta, 15h às 19h.
Entrada livre.
“Naturezas improváveis… ou não!”
Na pintura de Domingos Leite Castro, a natureza não surge como descrição nem como simples motivo de contemplação. Surge como referência sensível, como memória difusa, como horizonte interior. As suas obras habitam um território ambíguo entre o abstrato e o evocativo, onde a matéria, a luz, a textura e a cor constroem imagens abertas, nunca fechadas numa leitura única. São naturezas improváveis, talvez, porque recusam a evidência. Ou talvez não, porque nascem de uma ligação funda ao mundo natural, aos seus ritmos, à sua espessura e à sua capacidade de sugestão.
Natural de Matosinhos, nascido em 1957, e residente em Vila do Conde desde a infância, Domingos Leite Castro revelou desde cedo inclinação para o desenho. Ainda jovem, chegou a ponderar um percurso ligado às belas-artes, mas acabaria por escolher a arquitetura, formando-se na FAUP. Durante décadas trabalhou nas áreas da arquitetura e do urbanismo, até que, por volta de 2014, num momento de inflexão pessoal e profissional, decide dedicar-se inteiramente à pintura. Essa passagem não representa uma rutura absoluta, mas antes um desdobramento natural de uma sensibilidade já antiga: a necessidade de criar, experimentar e dar forma a uma visão própria.
O seu percurso pictórico é marcado precisamente por esse impulso de pesquisa. Começou por explorar técnicas de encáustica, desenvolveu experiências com estruturas e caixas de ferro, e foi abrindo sucessivos caminhos de trabalho onde a experimentação se afirma como princípio essencial. Um momento particularmente revelador desse processo terá ocorrido em Paris, quando o contacto com uma pintura matérica e com o uso direto do pigmento despertou novas possibilidades técnicas e expressivas. A partir daí, a relação com o óleo, com o pigmento e com a construção da superfície ganhou outra profundidade.
A sua pintura procura explorar as texturas, as subtilezas cromáticas, a densidade dos materiais. Domingos Leite Castro afasta-se deliberadamente das cores mais vivas ou estridentes, preferindo uma paleta terrosa, contida, mineral, onde se reconhecem afinidades com a terra, com os sedimentos, com a erosão e com os vestígios da paisagem. Há nas suas telas uma corporeidade silenciosa que convoca a natureza sem a ilustrar diretamente. Mesmo quando o gesto se aproxima da abstração, permanecem sinais de horizontes, de superfícies orgânicas, de atmosferas que parecem emergir do interior da matéria.
Neste universo, a luz desempenha também um papel decisivo. Não uma luz apenas ótica, mas uma luz dramática, reveladora, que intensifica a presença das formas e aprofunda a sua carga emocional. Não é difícil reconhecer, nesse aspeto, a admiração do artista por Rembrandt, Velázquez e Caravaggio, mestres em quem a luz é sempre mais do que iluminação: é estrutura, tensão e mistério. Do mesmo modo, o fascínio por Anselm Kiefer ajuda a compreender a atenção que dedica à materialidade da pintura, ao peso físico da superfície e à potência poética da matéria.
Mas talvez um dos aspetos mais singulares da sua posição artística resida na forma como pensa a relação entre a obra e o observador. Domingos Leite Castro recusa condicionar excessivamente quem vê. Entende o quadro como um espaço de encontro livre, onde a experiência estética deve acontecer entre a pintura e a pessoa que a contempla, sem mediações impositivas, sem excesso de explicação, sem o peso biográfico do autor a determinar o sentido da obra. Não assinar os quadros na frente é, nesse contexto, um gesto coerente: retirar ruído, evitar distrações, preservar a autonomia da imagem.
Naturezas improváveis… ou não! reúne, assim, um conjunto de obras que afirmam a pintura como lugar de descoberta e de abertura. Nelas, a natureza é menos um tema do que uma vibração profunda; menos representação do visível do que impulso para pensar a matéria, o tempo, a luz e a emoção. O observador é convidado a entrar nesse espaço de suspensão, onde cada tela se oferece como experiência sensível e onde o improvável pode afinal revelar-se como uma das formas mais intensas do real.
Armando Castro Bento
Secretário do Conselho de Administração e responsável pelo Pelouro das
Exposições e Espetáculos.
DOMINGOS LEITE DE CASTRO
Biografia
Natural de Matosinhos, nasce em 1957 e reside em Vila do Conde desde a infância. Conclui o curso de arquitetura na FAUP, tendo a pintura como atividade extra curricular. Trabalha até 2013 na área da arquitetura e urbanismo.
A partir de 2014 dedica-se à pintura a tempo inteiro, experimentando desde então várias técnicas como encáustica, pintura acrílica e óleo e técnicas mistas.
Faz da experimentação e da descoberta durante o processo criativo um dos motes da sua pintura.
Tendo participado em diversas exposições coletivas e individuais as suas obras fazem parte de coleções individuais não só em Portugal, mas também na Europa, Ásia e Estados Unidos.
Sempre senti um fascínio pelas artes nomeadamente pela pintura.
Desde muito novo que, quer de forma lúdica, quer para conseguir algum rendimento financeiro, me dedicava esporadicamente à pintura e ao desenho.
Quis o destino que num período de hesitação na adolescência acabasse por enveredar pelo curso de arquitetura, em que o desenho também é um instrumento de trabalho determinante.
Até 2014 foi essa a minha atividade profissional. Com a crise que na altura se viveu e a correspondente falta de trabalho, comecei a dedicar-me à pintura a tempo inteiro.
Nessa altura percebi que realmente era aqui o meu lugar, onde me sentia livre e realizado. Por isso recusei alguns trabalhos de arquitetura que me foram propondo, o meu caminho (tardio, é verdade) era outro.
De início fiz alguns trabalhos em encáustica e mais tarde desenvolvi uma técnica à base de pintura que depois de exposta ao ar adquire características de oxidação do tipo aço corten ou bronze.
Em Paris ao visitar galerias de arte, uma chamou-me particularmente a atenção. Não sabia nada sobre o pintor nem se os quadros pretendiam transmitir alguma mensagem, não eram figurativos e, no entanto, o seu tipo de pintura, as cores e as texturas e a forma como se relacionavam, produziram em mim um grande fascínio.
Entrei e conheci o pintor que me explicou algumas das suas técnicas, o que me alargou os horizontes da criatividade.
A partir dessa altura enveredei pela pintura que exponho agora. Nada tem a ver com o que vi nessa galeria, mas as técnicas que comecei a explorar e a desenvolver a partir daí ganharam um cariz muito pessoal e facilmente identificáveis.
Faço da espontaneidade o meu processo criativo. Nem sempre há um desígnio no princípio e, quando o há, muitas vezes ele vai-se alterando com o decorrer do processo até chegar aquele momento em que considero que nada mais há a fazer para o dar por concluído.
A partir dessa altura o que me importa é a interação que se estabelece entre a obra e quem a vê. Sem títulos ou descrições, sem assinaturas, sem nada que possa interferir numa liberdade que deve ser plena entre a obra e o seu fruidor.
Numa pintura aprecio o conjunto, mas também aprecio cada um dos seus pormenores, todas as nuances de cores, texturas e camadas, que se nos revelam quando aproximamos o nosso olhar. Uma grande pintura é-o também quando são grandes cada uma das suas pequenas partes. Acontece-me muitas vezes ver reproduções de pinturas que a uma escala reduzida me parecem interessantes, mas quando as vejo ao natural perdem todo o encanto. O contrário também é verdade sobretudo com as obras de grandes mestres. Mais do que a representação figurativa, mais ou menos realista, ou abstrata, mais do que a mensagem que o artista queira transmitir através da sua obra o que me interessa em primeiro lugar são as pinceladas, as cores e as texturas.

