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André Carvalho: Lugar Impróprio
André Carvalho: Lugar Impróprio
I

Inauguração: 20 de junho a 4 de setembro de 2026.

Segunda a Sexta, 15h às 19h.

Entrada livre.

Lugare impróprio, ou a continuidade das rupturas

Há lugares que não se oferecem como abrigo. Lugares que parecem existir antes de sabermos habitá-los, ou depois de termos perdido a capacidade de os reconhecer. São espaços de passagem, de suspensão, de desconforto; lugares onde a memória se cruza com o absurdo e onde a figura humana surge, por vezes, como vestígio, como fragmento, como aparição.

Em Lugar Impróprio, André Carvalho parte de imagens do quotidiano, da observação, da memória e do arquivo pessoal, transformando-as através da pintura e do desenho. O próprio autor situa o seu trabalho entre a memória colectiva, as “bofetadas do absurdo”, as angústias da civilização e a banalidade inquietante das situações comuns. Esta exposição nasce precisamente desse intervalo: entre o que reconhecemos e o que nos escapa; entre o familiar e o impróprio; entre a continuidade de um percurso e as rupturas que o obrigam a recompor-se.

A ideia de lugar impróprio aproxima-se, por contraste, da definição de lugar proposta por Marc Augé: um lugar é relacional, histórico e identitário; aquilo que perde essas qualidades aproxima-se do “não-lugar”. (acsu.buffalo.edu) Mas, nas obras de André Carvalho, o impróprio não é apenas ausência. É matéria activa. É uma ferida onde ainda pode nascer uma forma. É um espaço que perdeu a evidência, mas não perdeu a possibilidade de ser pensado, pintado, reconstruído.

O percurso do autor parece construir-se assim: por encontros, deslocações e disrupções. Da pintura à arquitectura, das aulas de geometria à paixão pelas ideias, do gesto manual à estrutura conceptual, há uma tensão constante entre ordem e falha. A geometria procura organizar; a pintura devolve a dúvida. A arquitectura imagina lugares habitáveis; a imagem revela que nem todos os lugares que habitamos são verdadeiramente nossos. A continuidade do criador faz-se, então, por rupturas sucessivas: rasgar e remendar, interromper e retomar, desconstruir para voltar a ver.

Esta exposição ganha particular intensidade no tempo que vivemos. Falamos hoje de humanismo enquanto tememos a substituição do humano pela máquina. Mas talvez a contradição maior não esteja apenas na tecnologia. Está também na forma como os próprios humanos continuam a substituir, excluir ou apagar outros humanos: pelo racismo, pela intolerância, pela recusa da diferença, pelo medo do outro. Hannah Arendt chamou a atenção para a necessidade de garantir o “direito a ter direitos”, isto é, o direito de cada pessoa pertencer plenamente ao mundo humano. (Arqus) A arte, quando é lúcida, recorda-nos que nenhum lugar é justo se nele alguém se torna invisível.

Também por isso Walter Benjamin permanece actual quando escreve que “não há documento de civilização” que não seja também “documento de barbárie”. (sfu.ca) A civilização transporta sempre as suas sombras: progresso e violência, técnica e exclusão, beleza e ruína. As pinturas de André Carvalho parecem instalar-se nesse ponto exacto. Não procuram pacificar o olhar. Antes obrigam-no a permanecer diante da contrariedade: aquilo que vemos é simultaneamente íntimo e colectivo, pessoal e histórico, banal e profundamente perturbador.

A presença maquínica referida pelo autor — esse sistema que “rasga e remenda” — pode ser lida como metáfora do nosso tempo. Vivemos rodeados por dispositivos que prometem eficiência, conforto e previsão, mas que nem sempre sabem acolher a fragilidade, a ambiguidade e a diferença. A UNESCO, na sua recomendação sobre ética da inteligência artificial, insiste que a dignidade humana, os direitos humanos e a supervisão humana devem permanecer no centro das decisões tecnológicas. (UNESCO) A questão, porém, ultrapassa a máquina: que espécie de humanidade queremos preservar, se tantas vezes falhamos no reconhecimento do outro?

Lugar Impróprio propõe, assim, uma reflexão sobre o desconforto como possibilidade. O impróprio não é apenas o inadequado, o deslocado ou o rejeitado. Pode ser também o lugar onde a consciência desperta. O lugar onde a pintura transforma a inquietação em presença. O lugar onde a diferença deixa de ser ameaça e passa a ser convite.

Num mundo saturado de contrariedades, André Carvalho não nos oferece uma saída fácil. Oferece-nos antes uma paisagem de tensão, onde a beleza não elimina a ferida e onde a ferida não impede a beleza. A sua pintura convida-nos a olhar novamente para aquilo que parecia impróprio — e talvez a descobrir aí uma forma mais exigente, mais humana e mais necessária de habitar o mundo.

Armando Castro Bento
Secretário do Conselho de Administração e responsável pelo Pelouro das
Exposições e Espetáculos.

André Carvalho nasceu em Felgueiras no ano de 1993.
Uma vez nascido, foi criado. Licenciou-se em Artes Plásticas – Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (2016).
Desde aí, vive no Porto e mantém a sua atividade como artista, ora vagarosamente, ora ferozmente.
Em 2022 fundou o atelier Espaço Contínuo, onde trabalha atualmente.
Desde 2023 é docente no Instituto das Artes e da Imagem, em Gaia.

Dedica-se maioritariamente à prática do desenho e da pintura.
Encontra os motivos para o seu trabalho na memória coletiva, nas bofetadas do absurdo, nas angústias da civilização e na mais comum das situações.
Representa os estados de espírito de quem pensa na morte da bezerra através da atmosfera, da luz e do enquadramento.

Lugar Impróprio

O trabalho apresentado desenvolve-se essencialmente a partir de imagens do quotidiano recolhidas da memória, da observação e do arquivo pessoal, que são transformadas através da pintura e do desenho.
O conjunto procura tornar visível uma inquietação latente e suprasubjectiva que atravessa silenciosamente a experiência do quotidiano.
Retrata o contorno aparente de fenómenos interiores, devaneios íntimos que se desenrolam num lugar impróprio. Sobrepõe-se à construção interior a presença maquínica do sistema que perpetuamente rasga e remenda, gesto que o trabalho devolve.